De ovo em ovo, salvamos espécies ameaçadas da extinção

De ovo em ovo, salvamos espécies – descubra como cuidamos dos ovos de aves ameaçadas de extinção!

Convencer uma equipe de aviação inteira a deixá-lo entrar em um voo comercial com um ovo e uma galinha.

Parece impossível? Pois foi o que Pedro Nardelli, um dedicado criador de aves, conseguiu fazer. O motivo era nobre: transportar o último ovo de uma ave raríssima, o mutum-de-alagoas (Pauxi mitu).

Os últimos registros da ave na Mata Atlântica nordestina foram feitos por caçadores entre 1984 e 1988. A caça, associada ao desmatamento para a plantação de cana de açúcar, incentivada pelo programa Proálcool, levou à extinção dessa ave na natureza.

Na época em que Nardelli tentou salvar o ovo, restavam apenas 5 mutuns. Felizmente, essa situação desesperadora se transformou: atualmente, existem mais de 200 aves dessa espécie sob cuidados humanos (inclusive aqui no Parque das Aves, localizado em Foz do Iguaçu – Paraná).

Além disso, já existem alguns animais protegidos em uma pequena reserva no estado do Alagoas.

Mutum-de-alagoas, espécie de ave ameaçada de extinção
que reproduzimos no Parque das Aves.
Foto: Alberto Fonseca.

Essa história ilustra bem como salvar espécies ameaçadas nunca foi uma missão fácil… e o quanto seus ovos podem ser preciosos!

Passarinho de Páscoa, que trazes para mim?

Ao comemorar a Páscoa, muitas pessoas esquecem o quanto ela está relacionada com a reprodução de diversos animais… inclusive das aves. 

Simbólica para diversas culturas, a presença dos ovos tem uma conotação muito positiva na maioria delas: eles estão associados com a fertilidade e com o potencial de gerar vida.

Porém, em nenhum outro âmbito a presença de ovos é mais essencial do que na conservação das espécies ameaçadas.

No entanto, a tarefa de entender como as aves se reproduzem é bastante complexa… e exige muito conhecimento e comprometimento. Por isso, os conservacionistas precisam fazer diversas observações (tanto diretamente na natureza, como em criadouros e zoológicos).

Assim, é possível descobrir como monitorar e manejar casais de aves por longos períodos… até que cada par se torne, ao menos, um trio!

Então… que tal aproveitar essa época do ano para descobrir curiosidades sobre a importância dos ovos para salvar espécies ameaçadas?

O coelho de Páscoa pode ser um símbolo dessa época festiva…
mas, na natureza, nada representa tão bem esse período como os ovos!

Foto: Equipe do Parque das Aves.

O ovo ou a galinha?

Vamos começar pelo começo: afinal, quem veio primeiro – o ovo ou a galinha?

Bem, podemos dizer que os ovos foram “inventados” antes das galinhas, já que os dinossauros colocavam ovos em ninhos muito antes de elas sequer existirem. Inclusive, espécies como os maiassauros se sentavam em seus ovos para aquecê-los… exatamente como as galinhas fazem!

Como as aves evoluíram destes répteis antigos, é possível afirmar que a galinha veio depois do ovo. Porém, a postura dos ovos não é uma exclusividade das aves: diversos outros grupos de animais, como insetos, peixes, anfíbios, répteis e até alguns mamíferos (como o ornitorrinco) colocam ovos!

A capacidade de colocar ovos não é exclusiva das aves: os dinossauros já faziam isso muito antes de elas existirem… e diversos outros animais, como os répteis, também se reproduzem dessa maneira. Foto: Equipe do Parque das Aves.

Enganou o bobo na casca do ovo

Um ovo pode parecer frágil… mas as aparências enganam.

Só quem já tentou quebrar um ovo de galinha segurando-o na vertical sabe como é difícil! Quando está na posição correta no ninho, mesmo pais “pesados” podem sentar no ovo que ele não quebra de jeito nenhum.

Além disso, enquanto o líquido interno do ovo protege contra choques mecânicos, a casca contém poros que permitem que o oxigênio entre e o gás carbônico saia. Ou seja: é realmente uma “casa” perfeita!

Dessa forma, durante todo o período de incubação, que pode variar de 10 dias (para pequenos passarinhos) a mais de 2 meses (como nos pinguins), os ovos mantém o embrião protegido, hidratado e nutrido.

Então, não é exagero nenhum dizer que ovos proporcionam diversas vantagens evolutivas às espécies!

Pode não parecer… mas um ovo é muito mais resistente do que imaginamos!
Foto: Equipe do Parque das Aves.

Além de abrigar novas vidas, os ovos também servem de alimento para muitos animais na natureza – como ratos, lagartos, raposas, felinos, gambás, serpentes, gralhas, corvos, tucanos e aves de rapina.

Adaptações fantásticas

Embora o formato oval seja o mais comum, existem diversos outros tipos de ovo: perfeitamente redondo, pontudo e até em formato de pêra!

As cores também variam muito: vão de branco puro a diversos tons de azul, verde, cinza, bege, marrom, vermelho e laranja.

Na verdade, tudo depende do local onde eles são colocados. Ovos brancos, que chamariam muita atenção de longe, geralmente estão em ninhos fechados. Já ovos depositados em áreas abertas e no chão possuem cores mais discretas e parecidas com o ambiente, além de manchas de vários tamanhos.

Ficou impressionado? Pois saiba que, muitas vezes, a cor que os humanos enxergam sequer é real! Por exemplo, quando observamos ovos aparentemente brancos usando uma frequência de luz ultravioleta (que é como muitas aves enxergam), descobrimos que eles podem ser coloridos.

Além do formato e da cor, o tamanho dos ovos também varia muito. Em geral, os maiores ovos são os de avestruz – que pesam, em média, 1 quilo e 300 gramas! Inclusive, o maior ovo dessa ave já registrado pesava 2 quilos e 589 gramas (o equivalente de mais de doze ovos de galinha combinados).

Por outro lado, os menores ovos que existem são os ovos de beija-flores. O beija-flor-de-helena (Mellisuga helenae), por exemplo, bota ovos com menos de 1 centímetro de comprimento, que pesam menos de 1 grama.

Os ovos de beija-flor são os menores que existem na natureza.
Foto: Equipe do Parque das Aves.

De ovo virado

Infelizmente, toda essa beleza e diversidade de ovos está ameaçada por diversas ações relacionadas com humanos.

Uma delas é a predação por animais domésticos (como cães e gatos) que saem do ambiente interno e atacam ovos e filhotes.

Inclusive, a presença de animais exóticos (introduzidas pelo homem em áreas onde não existiam originalmente) causa muitos danos aos ovo, filhotes e pais de espécies locais.

Um outro motivo de preocupação é a poluição das águas: nos ovos de pardelão-gigante (Macronectes giganteus), uma ave presente na Antártida, já foram identificados elevados níveis de contaminação por pesticidas e metais pesados, como mercúrio.

Além disso, em diversos países ocorre a retirada ilegal de muitos ovos dos ninhos, tanto para consumo quanto para a venda. Essa prática criminosa prejudica muito as aves, especialmente as que já se encontram em perigo de extinção.

Também vale lembrar que algumas espécies de aves ficam com os filhotes até que eles se tornem jovens adultos capazes de virar por conta própria. É o caso das harpias, que só terão outros filhotes depois de um longo período treinando seu filho único para a vida na floresta.

Por isso, a caça e o tráfico de animais adultos também prejudica muito os cuidados com ovos e filhotes, sobretudo os que são totalmente dependentes de seus pais.

Assim, é muito importante recusar a compra e posse de ovos e animais provenientes do tráfico!

A retirada de ovos, filhotes e adultos da natureza deixa ninhos abandonados,
filhotes órfãos e adultos vulneráveis, além de levar à extinção das espécies.
Recuse a compra ou posse de aves ilegais!

Foto: Projeto Periquito-Cara-Suja.

O mundo não é mais o mesmo

Por fim, uma nova ameaça parece estar ameaçando os ovos das aves: as mudanças climáticas.

De acordo com uma análise de 20 espécies do Reino Unido ao longo de 25 anos, essas mudanças de temperatura leva as aves a desovarem antes da hora. Inclusive, espera-se que o aumento das temperaturas faça datas médias de postura ocorrerem ainda mais cedo para 75% dessas espécies até 2080.

De fato, essas mudanças no clima podem ter diversas outras implicações para a reprodução das aves. Chuvas muito intensas num intervalo muito curto de tempo, por exemplo, prejudicam a reprodução de diversas espécies, em especial as que fazem ninhos em cavidades nas árvores.

É o caso da arara-azul do Pantanal, uma espécie que pode ser observada no Parque das Aves. Quando a chuva é lenta, a água escorre. Porém, quando há uma grande quantidade de água em poucas horas, os ninhos inundam e demoram dias para secar, o que afeta a sobrevivência de ovos e dos filhotes.

A arara-azul é uma das espécies prejudicadas pelas mudanças climáticas,
que causa alagamentos nos seus ninhos e prejudica sua reprodução.
Foto: Equipe do Parque das Aves.

De ovo em ovo, salvamos espécies

Com tantos perigos e desafios, reproduzir aves ameaçadas de extinção sob cuidados humanos se tornou mais importante do que nunca. Essa prática, realizada em criadouros conservacionistas e zoológicos, ajuda a aumentar seus números (criando populações de segurança).

Além disso, a reprodução sob cuidados humanos permite que equipes de técnicos ganhem experiência no manejo e na reprodução das espécies, habilidades muito importantes para ajudar aves resgatadas ou nascidas dentro programas de reintrodução na natureza.

De raminho em raminho, o passarinho fez seu ninho

Durante o início da primavera, o Parque das Aves se torna um verdadeiro berçário para diversas aves da Mata Atlântica.

Nessa época, quando o clima se torna mais favorável ao nascimento dos filhotes, as aves costumam botar seus ovos. O período também coincide com a reprodução da maior parte das aves no ambiente natural, que está relacionada com o fim da seca ou com a floração e frutificação das plantas, que traz mais alimento.

Porém, o trabalho da nossa equipe de veterinários, zootecnista, biólogos e outros técnicos do Parque das Aves começa muito antes da estação reprodutiva. Então, a equipe da Sala de Filhotes precisa se preparar com bastante antecedência para atender dezenas de jovens aves com os melhores cuidados!

Assim, tudo começa na confecção dos ninhos artificiais, que podem ser feitos de ninhos de folhas secas, cipós, feno, vassoura de piaçava ou outros materiais, sempre de acordo com a preferência da espécie.

Construção de um ninho de piaçava. Foto: Equipe do Parque das Aves.

Além disso, durante o período reprodutivo, a equipe também oferece material para que as pró´prias aves construam seus ninhos.

A cada passarinho, seu ninho

Cada espécie tem um jeito próprio de fazer suas posturas. Por exemplo, araras e periquitos colocam ovos dentro de árvores reais ou caixas-ninho feitas de madeira pela equipe de Infraestrutura – que já criou ninhos artificiais até mesmo para enviar a projetos de conservação na natureza. Para monitorar os ovos nas alturas, a equipe do Parque precisa usar escadas e câmeras.

A equipe de Infraestrutura do Parque das Aves cria caixas-ninho especiais, feitas de madeira.
Esse é um ninho de periquito. Foto: Equipe do Parque das Aves.

Dependendo da ave, da umidade e da temperatura no ninho, o período de incubação dos ovos pode variar de 10 a 70 dias. Na hora de incubar o ovo, há espécies onde machos e fêmeas se revezam (como os flamingos), outras em que apenas as fêmeas chocam os ovos (como as harpias) ou que a tarefa é realizada somente pelos machos (como os macucos).

Para acompanhar a incubação, a equipe mapeia todos os ninhos, identifica os pais e observa se estão chocando os ovos da forma correta.

Pisando em ovos

Porém, com pais de primeira viagem, não é incomum que um ovo acabe perdido ou role do ninho. Por isso, quando os pais se “atrapalham”, a equipe da Sala de Filhotes coloca um ovo falso (feito de madeira) no ninho.

Enquanto isso, o ovo real fica dentro de uma incubadora com temperatura e umidade controladas. Essa máquina também realiza a rolagem do ovo (assim como os pais fariam na natureza), evitando que a membrana cole no embrião.

Além disso, a equipe acompanha os batimentos cardíacos do ovo usando um aparelho chamado Buddy (como na foto abaixo).

Buddy, aparelho que mede os batimentos cardíacos do filhote dentro de um ovo.
Foto: Equipe do Parque das Aves.

Durante o período de acompanhamento na Sala de Filhotes, os ovos também são pesados. Além disso, por meio de uma ovoscopia (exame que usa uma fonte de luz para revelar o que acontece dentro do ovo), é possível acompanhar o desenvolvimento do embrião.

Hora de nascer

Em geral, os ovos permanecem sendo cuidados na Sala de Filhotes até que chegue próximo da data de eclosão.

Nesse momento, os ovos de madeira são trocados pelos verdadeiros, para que os filhotes possam nascer na presença dos pais. Isso evita que eles se identifiquem mais com os humanos que com a sua própria espécie, o que atrapalha na hora de aprender os comportamentos naturais.

Mesmo quando um ovo recebe cuidados na Sala de Filhotes,
o ideal é que, na hora de nascer, o filhote esteja no recinto com os pais.
Assim, ele irá aprender os comportamentos naturais da espécie.

Foto: Equipe do Parque das Aves.

Às vezes, os filhotes têm dificuldades para nascer. Então, quando eles não conseguem sair dos ovos sozinhos, o veterinário precisa ajudar no processo de eclosão. Aos poucos, a casca é retirada… permitindo que o filhote comece a sua jornada!

Inclusive, após o nascimento, a equipe ainda cuida de filhotes mais fracos, que precisam de cuidados especiais. Eles são alimentados, higienizados e mantidos aquecidos dentro de UTAs (Unidade de Tratamento Animal) a 36°C. Aos poucos, essa temperatura vai sendo reduzida, até que eles estejam prontos para experimentar o ambiente externo.

Após o nascimento, a equipe da Sala de Filhotes oferece atenção extra aos filhotes mais vulneráveis, que precisam de cuidados especiais. Vídeo: Equipe do Parque das Aves

Tudo é registrado diariamente em planilhas com informações sobre os ovos e filhotes ali presentes. Assim, sabemos que, ao longo dos anos, centenas de aves de dezenas de espécies diferentes, passaram pela Sala de Filhotes.

E cada uma delas pode tornar mais próximo o sonho de conservar espécies na natureza.

Lugar de ovo é no ninho

Na época de reprodução, muitas pessoas encontram ovos no chão e ficam com dúvidas sobre como proceder. O ideal é não intervir… a não ser que você tenha visto onde o ovo caiu, já que ovos no chão podem ser de espécies que realmente os colocam no chão.

Por outro lado, quando os ovos correm risco de serem pisoteados ou predados por animais domésticos, a recomendação é contatar os órgãos ambientais para resgatá-los. A mesma indicação vale para os filhotes.

Muitas espécies de aves colocam seus ovos no chão.
Então, antes de resgatá-los achando que um ovo caiu do ninho,
verifique se eles realmente precisam de ajuda
.
Foto: Equipe do Parque das Aves.

Mantendo o ovo ou o filhote onde está, ou entrando em contato com um órgão ambiental caso ele corra risco de morte, você age da maneira correta e contribui muito para proteger as aves!

Assim, de ovo em ovo, com certeza podemos salvar muitas espécies ameaçadas de extinção.



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