Um ninho muito raro

Nosso chefe de conservação, Ben Phalan, viveu a experiência de monitorar um ninho de saíra-apunhalada, uma das aves mais raras da Mata Atlântica. Ele nos fala da sua experiência.

Por: Ben Phalan

A saíra-apunhalada, além de ser uma das espécies mais raras da Mata Atlântica, é uma das mais lindas. Eu já procurei a espécie nas matas de Vargem Alta, no Espírito Santo, no ano passado, depois do Congresso Brasileiro de Ornitologia, mas sem sucesso.

A situação da espécie é muito preocupante. Depois de séculos de desmatamento, restam apenas alguns fragmentos de floresta primária, que a ave pode habitar, e só conhecemos cinco indivíduos dessa saíra em existência. A espécie está à beira da extinção.

Uma saíra-apunhalada

Então eu fiquei muito animado quando recebi uma mensagem de Gustavo Magnago, o coordenador de campo do Programa de Conservação da Saíra-apunhalada, falando que ele e sua equipe tinham acabado de achar um ninho da espécie. Além de dar uma oportunidade única de aprender mais sobre a espécie, esta descoberta oferece esperança para o futuro da ave. Gustavo e Marcelo Renan, o coordenador geral do programa, me convidaram para ir a campo participar do monitoramento. 

Gustavo e Vinicius instalando um sombrite em baixo do ninho para capturar fezes ou penas que podem cair do ninho

No campo, a equipe tinha construído um andaime pequeno para observar o ninho, que estava quase vinte metros acima do solo, no topo das árvores – impossível ver sem binóculo ou telescópio. Quando cheguei, a fêmea estava no ninho, quase invisível, um pequeno olho laranja olhando, alerta, lá do alto da floresta.

Marcelo e João na plataforma de observação

Logo depois, consegui detectar as vocalizações do bando chegando. A saíra-apunhalada é uma espécie sociável e barulhenta, e o bando de quatro indivíduos chegou com um coro de piu-pius. E então a fêmea saiu do ninho para se reunir com os outros. Será que eles sabem que são, talvez, os últimos cinco indivíduos no mundo? – eu pensei. Parecia que não. O bando saiu, saltando ao longo dos galhos, procurando insetos no meio dos líquens.

A cada dia de observações no campo, nós aprendemos algo novo sobre a saíra. Elas estavam com medo dos gaviões-tesoura, que voavam em cima da copa. Decidimos ficar prontos para espantar qualquer predador que se aproximasse do ninho: para uma espécie tão rara, é importante dar a ela a melhor chance possível. O pequeno grupo de trabalhadores de campo, dedicado, assumiu essa tarefa. Um dia, enquanto a fêmea estava longe do ninho, voamos um drone e pudemos contar três ovos no ninho – a primeira vez que alguém havia observado ovos da espécie na história! Outra noite, encontramos a árvore onde o bando dormia à noite. Observamos o grupo forrageando com outras espécies de aves. Talvez esses bandos mistos sejam importantes para a saíra e as ajudem a ficar de olho nos predadores.

Um possível predador da saíra, um gavião-tesoura

Rápido demais, uma semana passou, e eu tinha que voltar para o Parque das Aves. Assim que voltei, recebi as notícias do campo: os filhotes nasceram! 

Essas aves enfrentam muitos desafios, desde predadores e parasitas a tempestades. A população é pequena, embora esperemos que Gustavo e seus colegas possam um dia encontrar mais aves em outra área de floresta. Um dos desafios está em ajudar a comunidade local a compreender a importância e a singularidade dessa ave. Ela  provavelmente habita apenas o Espírito Santo (não há registros certos em outros estados), e assim tem sido a única ave 100% capixaba durante milhares de anos! Precisamos encontrar formas de a saíra-apunhalada e os produtores agrícolas da região – que produzem os alimentos de que todos desfrutamos em terras que outrora eram Mata Atlântica – viverem em harmonia.

Líquens na mata, em Vargem Alta. A saíra-apunhalada é uma especialista em procurar insetos nos galhos cheio de líquens

A situação da saíra-apunhalada continua a ser precária, mas o nascimento dos filhotes faz crescer a esperança. Como disse o grande conservacionista Carl Jones, “não há casos sem esperança, apenas casos difíceis e casos dispendiosos”.

O Programa de Conservação da Saíra-Apunhalada é uma parceria do Instituto Marcos Daniel com a Transmissora Caminho do Café, e atende uma solicitação dos órgãos ambientais estadual (IEMA), federal (IBAMA) e comunidades, que solicitaram a TCC patrocínio para conservação da espécie. Você pode apoiar o programa com uma doação ao IMD aqui: https://www.paypal.com/donate/?hosted_button_id=GSJWQ2DNMGM38

Crédito das fotos: Ben Phalan

Crédito dos vídeos: Leopoldo Pivovar & Gabriel Leite/Programa de Conservação da Saíra-apunhalada

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