Agricultura e Floresta podem existir no mesmo espaço?

Complicado, não? Como ter plantações em meio a florestas? Como extrair o máximo de grãos se temos que dividir o espaço com florestas? É bem mais fácil e produtivo desmatar, “limpar” a terra e produzir. Aí sim vamos ter maior produtividade, e consequentemente mais lucro. Não é esse o objetivo? Não é isso que de fato importa para o país e sua balança comercial?

Sim, esse pensamento está correto, e sim, o que importa de fato são a produtividade e o lucro.

Apenas uma dúvida, se os elementos da natureza, como água, minerais, solo e clima não são infinitos, e/ou podem sofrer alterações, até que momento podemos usufruir desses elementos naturais em prol da produtividade e do lucro? 

Foto: Davidson Luna/Unsplash

“Ameaças como erosão, compactação e perda da matéria orgânica, entre outros, atingem quase um terço das terras do planeta. Amplo estudo envolvendo 600 pesquisadores de 60 países mostrou que mais de 30% dos solos do mundo estão degradados.” (Status of the World’s Soil Resources)

“A principal conclusão do livro não é boa. A degradação dos solos no mundo é muito alta e pode trazer consequências desastrosas nas próximas décadas para milhões de pessoas nas áreas mais vulneráveis”, diz Maria de Lourdes Mendonça Santos Brefin, pesquisadora da Embrapa Solos.

Acompanhemos esta passagem: “A erosão em solo agrícola e de pastagem intensiva varia entre cem a mil vezes a taxa de erosão natural, e o custo anual de fertilizantes para substituir os nutrientes perdidos pela erosão chega a US $150 bilhões”.

Humm, algo nos diz que para mantermos a produtividade, o lucro começa a ser ameaçado, pois cada ano são necessários mais investimentos em fertilizantes que auxiliem a “corrigir” o solo. “Correção” essa que leva a sua degradação. 

“O Brasil perdeu 87,2 milhões de hectares de áreas de vegetação nativa de 1985 a 2019, o equivalente a 10% do território nacional. Essa área é maior que o tamanho de países como Alemanha, Inglaterra, Itália e Portugal somados. Ou 3,5 vezes a área do estado de São Paulo.” (Maurício Ângelo, 2020)

Diminui-se as florestas e aumentamos os gastos em bilhões para manter os solos em equilíbrio, para que essa “produtividade” não seja ameaçada.

Os efeitos de perdas florestais não acontecem rapidamente, normalmente levam décadas, mas a certeza é uma só, eles acontecerão.

Tudo bem, provavelmente nem estaremos mais por aqui. Sim, verdade, mas nossas gerações, estarão? Ah, isto com certeza. Então eles que pensem em alguma forma de equilibrar todos estes impactos. Provavelmente bem isso que terá de acontecer. Infelizmente.

Conseguirão? Desejamos que sim? Mas se falharem? Na carência de água, tudo entrará em colapso. Isso falando apenas da água.

As florestas produzem água, mantêm a umidade em seus entornos, realizam trocas de minerais com o solo, evitam a sedimentação, lixiviação e erosão dos solos, e trabalham influenciando o clima a nosso favor, como um “ar condicionado”.  

Então se hoje parece utópico para muitos pensar em Agricultura e Floresta existindo juntos, isso será algo muito “palpável” e necessário para a próxima geração. 

Um exemplo de agricultura responsável

Atualmente já existem centenas de exemplos de agriculturas familiares e até mesmo comerciais sendo cultivadas em meio a florestas, ou nos seus entornos. 

Os Benefícios? Esses são muitos: cobertura permanente de vegetação sobre o solo, evitando perdas de minerais e erosão; umidade constante do solo; plantas de diferentes espécies ocupando os mesmos espaços, umas ajudando as outras no controle de insetos cortadores e sugadores. O clima é mais ameno, beneficiando ambos, agricultura e floresta. E nós em meio a tudo isso sendo beneficiados também.

“Para o ambiente os sistemas agroflorestais melhoram as propriedades físicas, químicas e biológicas dos solos; há menos necessidade de fertilizantes e defensivos; maior conservação de água e de produção de biomassa, além da estabilidade climática.” (Cristina Tordin – Embrapa Meio Ambiente)

Existe muita carência de produtos para o mercado interno e externo que podem ser cultivados nos sistemas agroflorestais, gerando produtos com alto valor agregado. Então vale a pena pensarmos nesse meio de cultivo? Com certeza, vale muito. 

Como fazer? De que forma fazer? Basta uma simples pesquisa pela internet para ver dezenas ou mesmo centenas de exemplos acontecendo neste momento no país.  

É fácil? Não, porque apesar de conhecermos, ainda nem começamos a compreender os ciclos que acontecem na natureza. Se aprendermos a respeitar esses ciclos, teremos condições de aplicar os métodos corretos para a agricultura em meio à floresta.

Nunca será fácil, mas pensar e repensar essas práticas ecológicas darão maior “fôlego” para as próximas gerações. Traduzindo esse fôlego, seria como “oferecer condições mínimas para uma existência digna e saudável para nossos filhos”.

Pensemos nisso!

Como você se sentiu com este conteúdo?
+1
0
+1
1
+1
0
+1
0
+1
0
+1
0
+1
0