Conheça os mitos sobre 4 animais supersticiosos

Muitos animais presentes na Mata Atlântica estão envolvidos em superstições, lendas e mitos. E infelizmente, isso pode prejudicar a conservação dessas espécies. Por isso, fizemos um compilado de “causos que o povo conta” sobre alguns animais e trouxemos fatos da biologia dessas espécies para avaliarmos o quanto de verdade há em cada história. Vamos conhecer melhor os animais da nossa Mata Atlântica?

Corujas

Coruja-buraqueira (Athene cunicularia)

As corujas são encontradas em praticamente todas as regiões do planeta, exceto em alguns locais extremamente frios. Por isso, sempre estiveram conectadas com os seres humanos. As pinturas rupestres de mais de 20 mil anos, por exemplo,  já retratavam estes animais, assim como hieróglifos egípcios.

Embora em algumas regiões esta ave tenha sido venerada, em diversos outros países a sua presença foi associada ao mistério, ao azar, à morte e à entidades maléficas. Muito dessa fama se deve aos seus olhos grandes e olhar fixo, seu pio estridente e seu hábito de ficar em casas abandonadas e em torres de igrejas. Mas esses comportamentos não tem nada de sobrenatural: enquanto os olhos enormes aumentam a eficiência da caça, seu canto ajuda a espantar outros animais do seu território e a se comunicar com indivíduos da mesma espécie. Já as igrejas, torres e casas abandonadas são refúgios seguros.

Coruja murucututu (Pulsatrix perspicillata)

No Brasil, as corujas estão envolvidas em todo tipo de história esquisita, como a ideia de que se alguém comer uma sopa de coruja ficará mais inteligente, ou de que o marido que comer coruja assada será submisso à sua esposa. Porém, não há nenhuma evidência para validar nada disso.

Também há quem diga que a murucututu (Pulsatrix perspicillata), uma espécie de coruja, é uma alma penada, castigada pelo mal que fez em vida e condenada a vagar pelas florestas na forma de coruja.

Outros afirmam que a suindara (Tyto furcata), também chamada de rasga-mortalha (por conta do som que o atrito das asas faz quando ela voa), é atraída pelas luzes do quarto dos doentes e traz um presságio da morte dessas pessoas. Na verdade, as suindaras pousam próximo de qualquer casa, independente da saúde de quem está morando nela!

A coruja suindara (Tyto furcata) é um animal muito importante para evitar a proliferação de ratos, tanto nos centros urbanos como nas áreas rurais

Nenhuma dessas histórias tem fundamento, mas durante muito tempo as superstições fizeram com que muitas pessoas não simpatizassem com corujas e incentivassem a crueldade contra elas, que são injustamente agredidas e mortas. Infelizmente, essa visão desconsidera a importância ecológica desses animais: as corujas são  praticamente ratoeiras com asas! Elas consomem cerca de 3 camundongos por dia, prestando um grande favor às áreas agrícolas e centros urbanos. Felizmente, por conta de diversas ações de educação ambiental, e de filmes como Harry Potter, que associam as corujas a algo positivo, hoje a maior parte das pessoas enxergam beleza nesses animais. Atualmente, a coruja também é tida como símbolo dos professores, especialmente quando associada com uma toga e um diploma embaixo da asa. Com esses novos significados, a aversão, o preconceito e medo diminuíram muito.

Caso encontre uma coruja ferida, ligue para o órgão responsável por resgate de fauna na sua região (que pode ser os bombeiros ou a polícia ambiental, por exemplo) para comunicar a situação. Isso pode salvar a vida de um animal!

Serpentes

As serpentes estão presentes em diversas lendas do folclore brasileiro. Uma das mais famosas é a história do boitatá ou fogo-corredor, uma cobra de fogo gigante, com olhos brilhantes, que protege as matas brasileiras contra os incêndios, pois queima e pune quem coloca fogo nas matas. Porém, existe uma explicação científica para a lenda: o fenômeno do fogo-fátuo, em que a oxidação dos produtos da decomposição de matéria orgânica (como o metano) produz luzes.

Quando foi lançado o filme “Anaconda”, muita gente também acreditou que cobras tivessem muitos metros de comprimento e saíssem por aí perseguindo humanos. Na verdade, o tamanho máximo da maior cobra brasileira, a sucuri, é de 9 metros, mas a maioria das sucuris possui apenas 4 metros de comprimento. Outros mitos sobre serpentes dizem que assobiar à noite atrai esses animais (o que não faz sentido, pois as serpentes não conseguem ouvir sons da mesma forma que a maioria dos animais), ou afirmam que quem vê uma cobra e não mata é perseguido por ela para sempre (o que não aconteceria, pois ao sentir a vibração das passadas de humanos, as serpentes normalmente se sentiriam ameaçadas e iriam fugir).

Jiboia (Boa constrictor), serpente não peçonhenta que pode ser observada no Parque das Aves, em Foz do Iguaçu. As serpentes são animais muito importantes, pois equilibram a cadeia alimentar, consumindo principalmente ratos

Várias histórias também afirmam que as serpentes mamam em vacas, ideia que pode ter surgido de uma observação equivocada de uma cobra atacando o úbere (mama) de uma vaca. Mas algumas pessoas vão ainda mais além: reza a lenda que, no meio da madrugada, algumas serpentes visitam mulheres que recém tiveram bebês, e ao chegar no quarto onde a mãe dorme com seu bebê ao lado, a cobra coloca a ponta da sua cauda na boca da criança, enquanto se alimenta no peito da mãe, que dorme profundamente. As características biológicas das serpentes podem nos ajudar a ver que essa história é falsa: como as serpentes são répteis e não mamíferos, elas são intolerantes à lactose. Seus dentes e sua boca também não permitem o movimento de sucção, como fazem os mamíferos. 

Ao encontrar uma serpente em área urbana, ligue para o órgão responsável por resgate de fauna na sua região (que pode ser os bombeiros ou a polícia ambiental, por exemplo) para pedir ajuda para retirar o animal. Enquanto isso, é sempre melhor deixar a serpente sair por conta própria, pois tentar removê-la pode fazer com que se sinta ameaçada, atacando alguém para se defender.

Urubus 

Urubu-rei (Sarcoramphus papa)

Os urubus são aves que, para algumas pessoas, são considerados anunciadores da morte. Outras pessoas dizem que eles estão permanentemente de luto, por conta das suas penas pretas. Essa fama infundada se deve ao fato de se alimentarem de carcaças, mas na verdade não são eles quem matam os animais, apenas os encontram devido ao seu olfato muito aguçado. 

Os urubus desempenham um papel muito importante em relação à limpeza das florestas, já que boa parte da sua dieta está baseada na alimentação da carcaça de animais mortos e outros materiais orgânicos em estados de decomposição. Esse comportamento contribui para diminuir a propagação de doenças, pelo fato das carcaças conterem bactérias que poderiam causar botulismo, antraz, raiva e cólera. Em áreas que não são encontrados urubus, as carcaças levam de três a quatro meses para se decompor, aumentando o risco de propagação dessas doenças.

Urubu-rei (Sarcoramphus papa), ave que pode ser observada no Parque das Aves

Aranhas

Em muitas culturas, as aranhas são tidas como protetoras do lar, que trazem dinheiro e sorte. Porém, nos filmes de terror, são frequentemente associadas com locais maléficos e abandonados. No entanto, o que muitas pessoas não sabem é que as aranhas são predadoras de diversos insetos, inclusive dos que transmitem doenças, como mosquitos, moscas e baratas, além de aranhas peçonhentas. 

Uma espécie que as pessoas temem muito são as caranguejeiras, também chamadas de tarântulas. Mas, apesar de grandes e peludas, as tarântulas são completamente inofensivas: além de não serem agressivas, seu veneno é fraco para causar males a seres humanos. Como todas as aranhas, ela utiliza o veneno para capturar insetos e outros pequenos animais dos quais se alimenta. Inclusive, há pesquisas sobre venenos de caranguejeiras como bioinseticidas, o que é muito importante, já que os inseticidas químicos têm resultado em populações de insetos cada vez mais resistentes. O Brasil possui a maior diversidade de espécies de caranguejeiras do mundo, e mesmo assim não há registros de acidentes humanos grave (a maior parte dos acidentes com esse animal ocorrem porque a pessoa tentou manuseá-las). Na maioria das vezes, a defesa da caranguejeira não é utilizar o veneno: ao sentir-se ameaçada, geralmente esfrega suas pernas traseiras no abdômen, liberando os pêlos, que podem atingir olhos, pele e nariz do animal que a ameaça, causando desconforto.

As caranguejeiras (também conhecidas como tarântulas) não são agressivas e não possuem veneno perigoso para os humanos. A espécie da foto é a Typhochlaena amma, descoberta em 2012, na Mata Atlântica

Embora a maior parte das aranhas não sejam peçonhentas ou sequer tenham um veneno de interesse médico, não se deve tocar ou manusear nenhuma espécie de aranha, pois pode ser difícil diferenciá-las. Quando as encontrar, simplesmente se afaste e deixe a aranha sair do seu caminho por si mesma, ou a coloque para fora de casa utilizando a ponta de uma vassoura.

Quando conhecemos melhor os animais que vivem em nossa região, sentimos menos medo e aprendemos a admirar sua beleza e valorizar sua importância, convivendo melhor com eles. Que tal ajudar a espalhar as informações do texto entre seus amigos, para que todos possam saber mais sobre essas espécies da nossa Mata Atlântica?

Aqui no Parque das Aves, localizado em Foz do Iguaçu, ao lado das Cataratas do Iguaçu, você pode conhecer todos esses animais de perto!